Denúncia do jornal O Globo - 17/10/2013
O Globo
Relatório conclusivo da Polícia Federal (PF) sustenta que o caixa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento é constantemente lesado por uma quadrilha envolvendo seis frigoríficos de Minas Gerais. De acordo com o documento, obtido pelo GLOBO, as empresas Cristalfrigo, Supremo Alimentos, GN Alimentos, Fridel, Hipercarnes e Plena Alimentos são suspeitas de aumentar o peso de diferentes cortes bovinos e suínos por meio de misturas à base de água e outras substâncias líquidas, como soro de leite e colágeno.
Para injetar água e outras substâncias no interior das peças, funcionários usaram pesadas e grandes máquinas industriais, apelidadas de injetadoras. A superfície dos alimentos fica cheia de pequenos furos. Ao todo, dez pessoas foram indiciadas por adulteração de produto alimentício e por formação de quadrilha, entre eles o empresário Gilmar de Oliveira Costa, da GN Alimentos, irmão do senador Zezé Perrella (PDT-MG).
De acordo com a Abrafrigo (Associação Brasileira de Frigoríficos), não há nenhuma empresa de grande porte envolvida na suspeita de fraude. A maior entre as seis, a Plena Alimentos, pode ser considerada de médio porte por abater cerca de 500 cabeças de gado por dia. As demais são pequenos frigoríficos.
Limitações de laboratório dificultam identificação de fraude
Em depoimento, o fiscal Clério Alves da Silva informou que existem vários processos administrativos no órgão para apurar denúncias de injeção de líquidos nas peças de carnes, mas devido a limitações técnicas do Lanagro (Laboratório Nacional Agropecuário) não é possível identificar a fraude.
“Devido à recorrência de tais fraudes e a recente devolução de carnes pelo Exército brasileiro, o Ministério da Agricultura decidiu noticiar os fatos à Polícia Federal. O Exército é constantemente lesados pelas fraudes, em 90% dos casos que chegam ao conhecimento do Ministério da Agricultura, sendo certo que as empresas Hipercarnes, Cristalfrigo, GN Alimentos, Supremo e Plena vem se revezando no fornecimento de carnes às Forças Armadas. Tais fraudes estariam sendo fomentadas devido a limitações técnicas do Lanagro, fato de conhecimento dos empresários do ramo de frigorífico”, diz trecho do depoimento que consta no relatório conclusivo da PF.
O documento faz parte da operação “Vaca Atolada”, deflagrada em junho de 2012 pela PF e concluída um ano depois. Inicialmente, a investigação foi instaurada após denuncia de que a unidade do Exército Brasileiro em Juiz de Fora, na Zona da Mata, quase foi vítima da fraude. Os militares suspeitaram das peças compradas por meio de licitação e acionaram a PF. Além de contratos com o ministério da Agricultura, os frigoríficos vendem para supermercados e empresas privadas.
Em 2007, a GN venceu dois pregões eletrônicos para fornecer carnes para o Ministério da Justiça. Juntos, os contratos alcançam R$ 1,2 milhão. No ano seguinte, comercializou um carregamento de miolo de alcatra, chã de fora, filé, acém e patinho com o Comando da Aeronáutica, vinculado ao Ministério da Defesa, pela quantia de R$ 935,4 mil. Ainda em 2008, ganhou contrato de R$ 1.055.116,20 para fornecer alimentos para o Comando da Marinha, no Estado do Rio de Janeiro. Para o Exército, a GN forneceu, conforme contrato de 2009, 1.200 quilos de carne de porco por R$ 3,3 milhões.
Com o governo de Minas, a firma fez parceria para cuidar da alimentação da Fhemig (Fundação Hospitalar de Minas Gerais) no valor de R$ 3.074.607,83, em pregão realizado em 2007.
Os seis frigoríficos foram procurados pelo GLOBO para comentar a ação da Polícia Federal, mas ainda não se manifestaram.














